Nos primeiros quatro meses de 2026, o Brasil registrou 889 novos processos de dissolução de sociedade.
O número chama atenção porque revela uma realidade que muitos empresários preferem não considerar quando iniciam um negócio: nem toda sociedade permanece alinhada ao longo do tempo.
O tema ganhou ainda mais visibilidade recentemente com os conflitos envolvendo a Azzas 2154, grupo formado a partir da fusão entre Arezzo e Grupo Soma, controlador de marcas como Farm, Hering, Reserva e Animale.
Embora se trate de uma empresa bilionária, o caso trouxe à tona um tema que faz parte da rotina de empresas de todos os portes: divergências entre sócios sobre decisões estratégicas, governança e direcionamento do negócio.
Mais do que analisar quem está certo ou errado, o episódio serve para reforçar uma reflexão importante: o que acontece quando os sócios deixam de concordar?
E, principalmente, a empresa está preparada para lidar com esse cenário?
Por que os conflitos societários estão aumentando?
É comum associar conflitos societários a empresas que enfrentam dificuldades financeiras.
Mas, na prática, muitos conflitos surgem justamente em momentos de crescimento.
Isso acontece porque, conforme a empresa evolui, novas decisões precisam ser tomadas, os riscos aumentam e os interesses dos sócios nem sempre permanecem os mesmos.

Em muitos casos, não existe necessariamente um erro ou má-fé por parte de alguém.
O problema está na ausência de regras claras para lidar com situações que, mais cedo ou mais tarde, tendem a surgir.
O que o caso Azzas revela sobre governança empresarial?
As notícias envolvendo a Azzas mostram que divergências podem surgir mesmo em estruturas empresariais altamente profissionalizadas.
Segundo informações divulgadas pela imprensa, o conflito envolve visões diferentes sobre decisões estratégicas relacionadas à operação da companhia, especialmente sobre o direcionamento de determinadas unidades de negócio após a fusão entre Arezzo e Grupo Soma.
Independentemente do mérito da discussão, o caso evidencia um ponto importante: nem sempre os conflitos surgem por falta de competência ou por resultados negativos.
Estamos falando de uma companhia formada por empresários experientes, com estruturas de governança consolidadas e acordos previamente estabelecidos. Ainda assim, divergências sobre estratégia, tomada de decisão e condução dos negócios vieram à tona.
Esse talvez seja o principal aprendizado para empresários de qualquer porte: o crescimento da empresa não elimina os conflitos societários. Em muitos casos, ele aumenta sua complexidade.
Quanto maior a operação, maior a necessidade de alinhar expectativas, definir responsabilidades e estabelecer mecanismos para lidar com impasses quando eles surgirem.
Por isso, a discussão não deve ser apenas sobre como evitar divergências entre sócios. Divergências fazem parte da dinâmica empresarial.
A questão é definir previamente como elas serão tratadas quando acontecerem.
O que é um acordo de sócios?
O acordo de sócios é um instrumento utilizado para estabelecer regras sobre a relação entre os sócios e sobre a forma como determinadas decisões serão tomadas dentro da empresa.
Diferentemente do contrato social, que normalmente disciplina aspectos mais estruturais da sociedade, o acordo de sócios permite tratar situações específicas relacionadas à convivência societária e à governança do negócio.
Seu principal objetivo é criar previsibilidade e reduzir o risco de conflitos futuros.
Em outras palavras, ele funciona como um conjunto de regras previamente definidas para situações que ainda não aconteceram, mas que podem surgir ao longo da trajetória da empresa.
O que normalmente deve ser definido em um acordo de sócios?
Embora cada empresa possua necessidades específicas, alguns temas costumam aparecer com frequência.
Entre eles:
● critérios para tomada de decisões estratégicas
● distribuição de lucros
● entrada de novos sócios
● saída de sócios
● compra e venda de participações societárias
● regras de sucessão
● cláusulas de não concorrência
● resolução de impasses entre sócios
● confidencialidade de informações estratégicas
A importância dessas definições está justamente no fato de que elas costumam ser mais fáceis de construir quando a relação entre os sócios está saudável.
Quando o conflito já existe, normalmente o espaço para negociação se torna muito menor.
O contrato social é suficiente?
Uma dúvida comum entre empresários é acreditar que o contrato social, por si só, resolve todas as questões relacionadas à sociedade.
Mas nem sempre é assim.
O contrato social possui papel fundamental para a constituição e funcionamento da empresa, porém muitas situações práticas da convivência entre sócios acabam exigindo definições mais específicas.
É justamente nesse espaço que o acordo de sócios costuma atuar.
Enquanto o contrato social organiza a estrutura da sociedade, o acordo de sócios ajuda a disciplinar comportamentos, expectativas, direitos e obrigações que fazem parte da rotina empresarial.
Por isso, os dois instrumentos possuem funções complementares.
O que acontece quando essas definições não existem?
A ausência de regras claras não impede que os problemas aconteçam.
Na verdade, ela costuma tornar esses problemas mais difíceis de resolver.
Sem definições prévias, situações relativamente comuns podem gerar grandes desgastes, como:
● divergências sobre investimentos
● impasses na gestão
● discussões sobre retirada de lucros
● disputas relacionadas à saída de sócios
● utilização de informações estratégicas
● concorrência entre ex-sócios
Além dos impactos financeiros, esses conflitos costumam gerar insegurança para colaboradores, clientes, fornecedores e para a própria continuidade da empresa.
Como empresários podem prevenir conflitos societários?
Nenhum documento é capaz de impedir completamente que divergências aconteçam.
No entanto, é possível criar mecanismos que reduzam riscos e tragam mais segurança para o negócio.
Entre as medidas que podem contribuir para a prevenção desses conflitos, estão:
● revisar periodicamente a estrutura societária
● formalizar acordos de sócios compatíveis com a realidade da empresa
● definir regras claras de governança
● estabelecer critérios objetivos para tomada de decisões
● prever procedimentos para entrada e saída de sócios
● revisar periodicamente contratos e documentos societários
A prevenção não elimina os desafios do crescimento empresarial, mas ajuda a empresa a enfrentá-los com mais organização e previsibilidade.
Lições sobre conflitos societários e acordo de sócios
O aumento dos processos de dissolução societária mostra que os conflitos entre sócios não são situações excepcionais.
Eles fazem parte da realidade empresarial.
O caso Azzas reforça que divergências podem surgir em qualquer negócio, independentemente do porte da empresa ou da experiência dos envolvidos.
Por isso, uma das decisões mais importantes para uma sociedade não está relacionada apenas ao crescimento do negócio, mas à forma como os sócios irão lidar com os desafios que surgirem ao longo do caminho.
Acordos de sócios não existem para quando tudo dá errado.
Eles existem para criar clareza, previsibilidade e segurança enquanto tudo ainda está funcionando bem.
Estruturar uma sociedade vai muito além da definição de participações societárias.
👉 Se a sua empresa está crescendo, recebeu novos sócios ou ainda não possui regras claras entre os sócios, talvez este seja o momento de revisar essa estrutura.